O primeiro dia de mata-mata da Copa do Mundo 2026 despertou os sentimentos mais genuínos daqueles que apreciam o esporte bretão. O confronto entre Brasil e Japão colocou frente a frente uma seleção brasileira em constante evolução e um adversário com brilhantismo inusual. No primeiro tempo, a competitividade que um dia sequer foi cogitada entre ambas seleções, mostrou-se plausível no contexto atual. E após passe errado de Danilo no meio de campo, o Japão abriu o placar.
A segunda etapa exigia mudanças na equipe. E aqui, prevaleceu a sabedoria de um velho pirata à beira do campo. Em um momento onde a entrada de Fabinho parecia óbvia, a cautela do italiano Carlo Ancelotti prevaleceu. Endrick entrou no lugar de um ineficiente Paquetá e trouxe volume ao nosso ataque. Mas para a surpresa de todos, após um cruzamento do zagueiro Gabriel Magalhães, o criticado Casimiro empatou a partida. E quando nomes como Luiz Henrique e Neymar eram cogitados, o treinador brasileiro optou por Martinelli no lugar do honesto Mateus Cunha.
A pressão se intensificou. O goleiro japonês operava milagres em sequência. Vinícius Júnior corria na ponta esquerda como poucas vezes fez em anos de seleção, mas vem fazendo com maestria nessa Copa do Mundo. E após incontáveis cruzamentos que não resultaram em nada, Bruno tocou com maestria para a pequena área, e Gabriel Martinelli virou para o Brasil, no último minuto. A minutagem do gol pode parecer apenas um bônus agradável, mas ela demonstra uma mudança de postura e poder de reação da equipe que reacendeu uma chama da esperança que foi apagada em um passado não tão distante.

Foto: Rafael Ribeiro / CBF
A vitória e classificação para a próxima fase deixariam o fã de futebol satisfeito. Mas a Copa do Mundo nos trás um senso de unidade genuíno que não se explica, e se sente intensamente. A Alemanha, que já não possui o elenco mais estrelado, enfrentou um frágil Paraguai. Uma partida dessa causaria apatia instantânea àqueles alheios à memória futebolística. No entanto, o infame 7 a 1 de 12 anos atrás, junto a narrativa clássica de Davi contra Golias que, de maneira intrínseca, transforma 22 homens correndo atrás de uma bola, em um batalha digna de Coliseu.
Muitos tratam o futebol como algo separado de nossa visão da sociedade. Alguns de forma inocente, outros com perceptível oportunismo. Quem vibrou com a vitória nos pênaltis do Paraguai sobre a Alemanha, pode não ter fundamentação teórica de unidade latino-americana, que Darcy Ribeiro definiu como “pátria grande”, nem os eventos históricos que comprovam a crueldade eventual de países de primeiro mundo aos mais fragilizados. Mas essa euforia coletiva por um país que nem é o nosso, exemplifica o poder de união entre os povos, a partir do maior show da terra em forma de esporte.
Que a Copa do Mundo ressignifique ideias e continue proporcionando histórias contadas de forma ímpar e inesperada. Que os velhos piratas nos ajudem quando possível, mas deixem os novos tupis adentrarem no mundo da bola e tomarem seu espaço. Rumo ao hexa, e que as zebras operam como mediador lúdico até na competição das melhores seleções do mundo.
Por Daniel Gannam Lage Ribeiro





