Cazuza encerrou uma de suas músicas mais provocativas com uma frase impactante: “Só as mães são felizes.” A música, composta com Frejat, percorre o lado sombrio da vida, os excessos, a transgressão, a decadência e depois de tudo isso conclui que a única forma de felicidade verdadeira é a que pertence às mães. E por que?
Entre todos os fenômenos que a existência humana pode testemunhar, nenhum se aproxima tanto do conceito de divindade quanto o ato de gerar a vida. Em todas as tradições religiosas e filosóficas, das mais antigas às contemporâneas, a criação é o atributo máximo do sagrado. Dar forma e vida a um ser que nunca existiu.
E a mulher faz isso, não por metáfora, ela faz isso literalmente, na carne, no sangue, na dor e na glória de um corpo que se transforma para abrigar outro ser. Um ser que começa menor do que um grão de areia e, alimentado por uma força que a ciência descreve mas nunca completamente explica, cresce, ganha forma, desenvolve olhos que ainda não viram o sol, mãos que ainda não tocaram nada, um coração que já bate ao ritmo de uma vida por vir.
Se existe algo neste mundo que nos permite intuir o que seria um ser divino criando o universo, esse algo está no ventre de uma mãe.
A poetisa goiana Cora Coralina sintetizou com precisão o papel da mulher como “renovadora e reveladora do mundo / A humanidade se renova no teu ventre.” Nesses dois versos está tudo definido na grandeza do feminino que não apenas gera, mas renova o próprio mundo a cada nascimento.
“Nasço e renasço toda hora”, é assim que pode pensar uma mulher sobre si mesma, numa síntese que o próprio ato da maternidade inspira.
A natureza, aliás, não é gentil com as mães. Ela é exigente, quase cruel na sua magnificência pois a natureza impõe ao corpo feminino uma preparação periódica mensal para a concepção. Não há escolha para a mulher. É o preço por carregar tarefa tão sublime e monumental de sustentar outra vida enquanto sustenta a própria. Após a concepção, cede nutrientes, altera hormônios, expande ossos, redistribui órgãos por meio de um desgaste real, físico e emocional que nunca homens irão poder medir.
E depois do nascimento, a construção continua. A mãe que amamenta oferece do próprio corpo o alimento perpetuando a história da humanidade, um ser de cada vez, com uma dedicação que nenhuma outra instituição, nenhuma lei, nenhum Estado jamais conseguirá substituir.
Há de se reconhecer que o Direito tenta, à sua maneira insuficiente, proteger esse fenômeno. A licença-maternidade, os direitos da gestante, a proteção ao emprego, os benefícios previdenciários são tentativas de uma sociedade organizada de reconhecer que aquela que gera merece máxima proteção em um sistema de direitos fundamentais. Mas o Direito, por mais que avance, sempre chegará atrasado diante do mistério. As normas protegem o corpo e a personalidade mas nenhuma norma alcança o sagrado.
E voltando à pergunta do início, Cazuza responde que só as mães são felizes porque podem nos dar a vida. O resto faz parte do ciclo mundano porque só a elas foi concedido o maior milagre. Porque só elas conhecem a felicidade da criação.
Que neste Dia das Mães possamos olhar para cada mãe não apenas com carinho, mas com a reverência que se reserva àquilo que transcende a compreensão humana, mas que se reconhece, no fundo de qualquer consciência desperta, como sagrado.
“Só as mães são felizes” pois são os únicos seres que alcançam verdadeiramente o que há de mais divino que existe no mundo por nos dar a vida.
Feliz Dia das Mães.
Dedicado à minha mãe, Regina (in memoriam) e à minha esposa Priscila.
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