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Fé cega, faca amolada

Nas últimas semanas, ocorreu a convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo. Ao todo, vinte e seis nomes foram anunciados. Mas era visível como os espectadores do evento ansiavam pelo fechamento de uma saga conturbada na história de um ídolo controverso.

Não é novidade para ninguém que, desde a conquista do pentacampeonato em 2002, a seleção brasileira vem carente de ídolos. Mas na década passada, surgiu um nome que parecia curar essa ferida. Um menino com uma habilidade inquestionável, de caráter quase provocador.

Desde 2010, Neymar desperta as sensações mais variadas, não só no espectro futebolístico, mas na sociedade brasileira. No campo, ele marcou uma geração. A minha geração. Machucada eternamente pelo 7 a 1 em 2014, que nos deixou o pior legado possível. Desde lá, houveram vitórias eventuais, que não compensaram as mudanças de técnico, eliminações inesperadas, e uma perda de identificação por parte do povo, que pegou antipatia da seleção. Mas em meio a tudo isso, havia uma chama da esperança, que driblava, finalizava, e tirava um sorriso genuíno do nosso rosto. Era a terceira via no meio de um duelo de gigantes. O emergente em meio à dualidade.

No entanto, quando Messi e Cristiano Ronaldo já estavam em idade avançada, Neymar tomou decisões que colocaram sua idolatria em risco. A ida inexplicável ao Al Hilal, junto às atitudes questionáveis de sua vida pessoal (que diga-se de passagem, não podem ser ignoradas), fez dele uma figura pública extremamente controversa.

Imagem1 Fé cega, faca amolada

A volta ao Santos parecia ser a última chance de o colocar de volta naquele pedestal, sendo a única salvação para o time que o revelou. O resultado não foi esse. Há um ano no clube, atuações irregulares, atitudes imaturas e falta de ritmo marcam a volta decepcionante do ídolo.

Mas o que se viu na última segunda-feira, não é sobre o que Neymar é, e sim sobre o que ele pode ser. É acreditar no pouco provável,  imaginar o que quase aconteceu, e acima de tudo, uma esperança culposa. Uma análise pragmática inibe a euforia da convocação dele. Mas uma seleção, pentacampeã, órfã de uma sexta conquista cada vez mais distante, precisa invocar o lúdico para sobreviver. Neymar não é mais o mesmo, mas pode ser algo semelhante. E nesse contexto, muitos de nós preferimos arcar com essa possibilidade. Felizmente, o Ancelotti é um dos nossos.

Por Daniel Gannam
Foto: Reprodução

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