Nas canções “My Sweet Lord” e “Give Me Love” de George Harrison há uma espiritualidade sem forma de culto, mas que transmite amor, paz e luz “na Terra”. Harrison junta aleluia e Hare Krishna, mistura devoção cristã e referências hindus, e desenha um Deus que não escolhe bandeira religiosa atravessando fronteiras entre ritos e deuses, propondo uma religião sem templo de pedra, mas com raiz num desejo simples de ser livre para amar.
Ser tocado por algo que não se confunde com doutrina, com partido político nem com Estado é entender um tipo de liberdade que ecoa em figuras históricas que pregaram a paz e que por tamanha pretensão são figuras incômodas diante de qualquer estrutura de poder.
Na “Semana Santa” há a celebração da paixão de Cristo tida como seu sofrimento perante a autoridade que sob a acusação fixada na cruz de “Rei dos Judeus” percebeu a ameaça que suas palavras traziam na forma de desordem política em relação ao governo romano e a sua subversidade ao propor a existência de um reino dos céus totalmente diverso da tirania vivida na Terra.
No Brasil de hoje, as disputas entre movimentos políticos viraram uma corrida de bandeiras mal compreendidas. Nesse cenário, tomando os ideais de amor e fraternidade propostas por Jesus Cristo contra a tirania e o extremismo, mostra-se que Ele ficaria pouco confortável em qualquer lado desses movimento políticos sem qualquer autenticidade uma vez que o povo, empurrado ao grito, não consegue discernir o certo do errado e não consegue explicar o que realmente defende.
A ideia de um Cristo anárquico, um pacifista radical, estaria menos preocupado em “vencer uma eleição” do que em desmontar a lógica que transforma pessoas em massa de manobra. Ele andaria mais perto de quem perdeu o emprego, de quem sofre violência, de quem mora às margens da cidade e não aparece em painel eleitoral; e isso o colocaria em choque direto com líderes que se apresentam como “salvadores” enquanto negociam favores, pactos de sigla e alianças de interesse.
Jesus, no Brasil do início do século XXI, não se enquadraria ao poder político nem ao religioso. Passaria por congressistas, por pastores televangelistas, por milicianos e por burocratas e terminaria sendo visto como ameaça (mais uma vez na história) por não se enquadrar. Sua cruz, dessa vez, seria o seu “cancelamento” nas redes socais por aqueles que teriam seus interesses afetados.
Restaria uma imagem no grupo de WhatsApp da família com manipulação de inteligência artificial em que Jesus do século XXI estaria abraçando um candidato à presidencia da República com a frase “quem não está comigo está contra mim”, como se política fosse catecismo de torcida.
Nesse ambiente confuso da política, o Cristo desmistificado, praticante do bem e desconfiado do autoritarismo, seria um intruso. Ele não se colocaria “do lado do povo” como cabo eleitoral. Caminharia entre os esquecidos, buscando identificar quem lucra com a venda desse fanatismo ao povo que troca sua liberdade pelo aprisionamento ideológico sem sentido.
Clarice Lispector tocou nesse ponto da liberdade que vai além e sua perda sem se perceber. “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. A liberdade é um processo de rebeldia, um trabalho interno para desmontar, dentro de si, as prisões que a sociedade foi construindo. A verdade que liberta, como proposta por Jesus no Evangelho de São João 8:32, afasta a manipulação de quem tenta comprar a fé e a esperança com promessas que não serão cumpridas. A verdade que liberta, então, seria um convite para se esforçar em enxergá-la por meio de olhos bem abertos.
A alternativa que Harrison canta (“give me love, give me peace on earth”) soa ingênua diante de um cenário em que o ódio rende mais politicamente do que a compaixão mas transmite sua crença e sua vontade de libertação. A verdade que liberta não chega na forma de decreto nem de vitória eleitoral. Ela chega em gestos simples (mas radicais) de recusar a briga automática, recusar o ódio como identidade, e insistir num amor que não se presta a ser arma de ninguém.







