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Vamos celebrar a estupidez humana

Há versos que atravessam o tempo porque parecem descrever o mundo em qualquer época. A banda Legião Urbana, na música Perfeição, escreve um início que soa como um diagnóstico permanente da humanidade:
“Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações.”
A frase é irônica, claro, pois não se trata de uma celebração literal, mas de um espelho colocado diante de nós. O compositor nos obriga a olhar para a própria história e perceber o quanto a humanidade repete os mesmos erros. Quando observamos os conflitos que continuam a surgir no Oriente Médio é difícil não concordar com esses versos. Não se trata apenas de um confronto militar ou de um episódio isolado de tensão regional. O que se vê ali é o encontro de muitas camadas de poder, cultura, religião e interesses estratégicos que atravessam séculos.
Para quem observa de longe (como nós) muitas decisões parecem irracionais. Como se povos inteiros aceitassem colocar em risco aquilo que deveria ser mais precioso: a própria vida. Mas a realidade é mais complexa. Em muitas sociedades a religião, a identidade cultural e as tradições ocupam lugar central na organização da vida coletiva. O islamismo, no caso iraniano, não é apenas fé religiosa, é também estrutura política, identidade nacional e forma de explicar e compreender o mundo.
O Oriente Médio ocupa uma posição estratégica singular no planeta. É ponte entre continentes, entre culturas e, sobretudo, um território onde se concentram algumas das maiores reservas de petróleo do mundo o que interfere em praticamente em todos os países do globo e cada um vai buscar defender seus interesses e por trás dessas tensões existe o tabuleiro invisível da geopolítica.
Está formada a receita para a guerra percebendo-se que a “estupidez humana” é democrática pois se distribui pelos quatro cantos do mundo e se adapta a qualquer cultura.
Há canções que parecem terem sido escritas para esses ciclos como se nota nos versos da música Sunday Bloody Sunday (Domingo Sangrento Domingo), da banda irlandesa U2 na qual há a pergunta “How long must we sing this song?” (Por quanto tempo, por quanto tempo teremos que cantar esta canção?). O título da música refere-se ao dia 30 de janeiro de 1972, quando irlandeses foram atacados por soldados britânicos em manifestação pacífica pela liberdade de sua região. Como o massacre ocorreu em um domingo, a data ficou marcada como o Domingo Sangrento. A pergunta presente nos versos permanece como reflexão de por quanto tempo ainda vamos repetir o mesmo refrão de sofrimento, como se a guerra fosse uma tradição do mundo, e não um fracasso reiterado da humanidade.
John Lennon também escreveu sobre os acontecimentos desse dia na música de mesmo título lembrando de um “domingo sangrento que abriram fogo contra pessoas” (Well it was Sunday, bloody Sunday, When they shot the people there), atiçando ingleses e escoceses com versos ácidos e agressivos (“You anglo pigs and scotties; Sent to colonize the north (…); Keep ireland for the irish; Put the english back to sea!” – Seus porcos ingleses e escoceses; enviados para colonizarem o Norte (…); Deixem a Irlanda para os irlandeses; Mandem os ingleses de volta pro mar!)
O protesto na forma de música instiga a não banalização da violência, impedindo o discurso de que existem explicações razoáveis para ela. Há uma frase atribuída a Voltaire que parece feita para tempos em que o mundo se acostuma a repetir justificativas até que elas soem razoáveis: “quanto mais uma estupidez é repetida, mais ela ganha aparência de sabedoria.” A manifestação pela paz virou ato de rebeldia e resistência nessa lógica porque toda vez que se conforma, a humanidade assina, em silêncio, mais um verso dessas canções inspiradas no absurdo.

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