Em outubro lá vamos nós, o povo brasileiro, depositar nas urnas uma surrada esperança de tempos melhores como um gesto de teimosia. O desgastado modelo de campanhas eleitorais com bandeiras em esquinas e jingles que grudam na cabeça faz sentido somente para uma estratégia de marketing e não para a construção de uma democracia. O eleitor brasileiro é o alvo da publicidade, e os candidatos, produtos dispostos numa prateleira à espera de escolha. E vai caminhando o brasileiro, meio descrente, meio esperançoso, com o título baixado no celular, rumo à sua seção eleitoral participar dessa “festa” democrática do marketing.
Acaba que as eleições se tornam um exercício de fé. Acreditar e ter esperança são condições para decidir em quem votar. Os marqueteiros tentam contagiar o eleitor com imagens do candidato sempre muito sorridente e convencer que este “sabe o que é melhor para o Brasil”, sem nunca definir com clareza projetos de governo ou perfil ideológico político. A confusão na cabeça do eleitorado vai se formando entre discursos moralistas e progressistas, capitalistas e esquerdistas, fazendo com que a definição do candidato seja algo realmente confuso. Serão seis nomes a serem escolhidos, e cada um tem sua fórmula mágica para salvar o Brasil. Difícil acreditar que, nesse país em que quase 30% de sua população é considerada analfabeta funcional, se consiga discernir com coerência essa complexa engrenagem proporcionada pela nossa idealizada democracia.
E vale lembrar que a presença nas urnas é obrigatória para esses “cidadãos” analfabetos funcionais. A tudo isso soma-se que o país vive uma espécie de vertigem em que os Poderes trocam de lugar e ninguém sabe mais quem manda em quê. Cresce o protagonismo do Judiciário, que avança sobre matérias reservadas ao Legislativo e ao Executivo, retratando uma república cujos princípios não se afirmam.
A Constituição, com aquela promessa de abrigo para todos, vem se apresentando mais com jeito de condomínio fechado.
Assim, cada voto parece representar uma pequena desobediência ao cinismo, um jeito teimoso de levantar um protesto tímido, e “acreditar” se torna um pequeno ato de coragem.
Na música com o título “Eu Sou Egoísta”, Raul Seixas avisa que não entrega o apoio da sua existência a dogma nenhum, a partido nenhum. Na letra se declara que “eu sou ego, eu sou ista, eu sou egoísta”. O músico desmonta a palavra para se explicar no contexto político: ego, o eu, transformado em forma de governo de si mesmo. Nem capitalista nem esquerdista, ego-ísta. Egoísta com tom de rebeldia e negação de quem não deixa que o Estado decida pela sua vida. Um egoísmo libertador que se refere àquele que não abre mão de que sua consciência seja governada de acordo com suas próprias convicções.
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