Será que eles não estão com medo?” – me pergunta uma criança de 11 anos que acompanha com os olhos arregalados pela TV a imagem da nave Orion que segue para o lado escuro da Lua. Eu não sei responder a pergunta prontamente e fico até meio confuso, porque enquanto olho aquilo acontecer não consigo afastar a sensação de que há algo ali que escapa completamente à minha compreensão porque, na verdade, parece que não há medo ali.
É algo que poucas pessoas que assistem a esse feito da humanidade pensam.
Quando a gente sai do encanto da imagem, a cena muda a forma de compreensão e se percebe que não se trata somente de uma façanha tecnológica. Os que ali estão são pessoas que desafiam a lógica da sobrevivência e da frágil condição orgânica humana e aceitam se submeterem ao risco de ir “para o espaço”.
Na música Rocket Man, de Elton John, esse ponto aparece sem disfarce. A canção descreve um astronauta que não se apresenta como herói, mas como alguém que se pergunta se consegue viver assim, distante da esposa, dos filhos, da rotina mais comum quando ele canta “I miss the Earth so much, I miss my wife, It’s lonely out in space, On such a timeless flight” (sinto tantas saudades da Terra, sinto saudades da minha esposa, é solitário lá fora, no espaço, num voo infinito assim). É o que ficou pra trás como a casa e o afeto da família que é o que dá sentido às coisas da vida. Eles, sim, podem ser considerados heróis em um tempo de heróis distorcidos, submetendo-se ao desafio de viajar para onde quase a totalidade da humanidade sequer entende como isso é possível. Mas essa condição não os desconfiguram do que são enquanto seres humanos.
O lado escuro da lua sempre foi mistério já que pelas leis da física às posições entre o sol, a Terra e a lua, sempre nos mostra a mesma face. O que não se via acabou sendo tratado como inalcançável. Há coisas que são afirmativamente impossíveis até que não se sabendo impossível alguém realiza. Em abril deste ano, a missão Artemis II realizou um desses feitos. A nave Orion, batizada pela tripulação de Integrity, ficou quarenta minutos sem qualquer contato com o Centro de Controle. Quarenta minutos de silêncio absoluto, do lado de lá. Antes de o sinal desaparecer, o astronauta Victor Glover disse apenas: “Nos veremos do outro lado.” Nesse tempo sem comunicação, a tripulação testemunhou o “pôr da Terra”, o momento em que o planeta se esconde atrás da Lua, visto de lá e depois o seu nascer, quando a Terra reaparece acima do horizonte lunar. Nunca antes olhos humanos tinham visto isso.
Quando vislumbro tudo isso ao lado da minha própria limitação (eu, que não sei nem fazer um aviãozinho de papel) o feito muda de patamar. Não é só difícil, mas algo que, para quem está daqui, soa como impossível. E, ainda assim, foi feito.
A banda Pink Floyd escreveu sobre isso muito antes da virada do século. Em Brain Damage, faixa do disco The Dark Side of the Moon, de 1973, descreve-se alguém que carrega dentro de si uma inquietação que pulsa, que não se cala, que empurra para além do que é seguro e conhecido. Como se as respostas para o que não se entende não estivessem aqui, na face iluminada das coisas, mas do outro lado, no escuro, cantando o refrão: “I’ll see you on the dark side of the moon” (nos veremos no lado escuro da Lua).
Cinquenta anos depois, antes de a comunicação da Artemis II ser cortada pelo silêncio do lado oculto, a poesia e a realidade disseram a mesma coisa, com meio século de distância. O lado escuro nunca foi só da lua, sempre foi também do próprio homem no contexto daquilo que ele não vê, não domina, mas insiste em alcançar e entender.
Há um pensamento atribuído a Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na lua, que ajuda a dimensionar isso: depois de pisar na lua, poucas coisas na Terra parecem realmente desafiadoras. É uma constatação quase melancólica como se existisse nisso uma espécie de solidão filosófica e uma ausência final dos medos que os heróis carregam quando alcançam um feito extraordinário.
E para concluir, voltando à pergunta da criança, a resposta não será encontrada na tecnologia avançada que proporciona segurança no desafio, a resposta está no homem. Eles estão com medo e vão assim mesmo. Porque coragem, no fim, é ir com medo.
Instagram: robsonsoares.adv






