O futebol ocupa na cultura brasileira a posição de fenômeno social, produz identidade coletiva e mobiliza o sentimento de um país. A Copa do Mundo é o ápice desse fenômeno de homogeneidade de classes sociais, raça, credo, sexos, preferências em geral: todos na torcida buscam pertencimento. O povo brasileiro, aquele que sofre com todas as nossas mazelas sociais, distante de vidas de “Virgínias” e “Neymares”, encontra nessa expectativa um alívio do peso do cotidiano, e enxerga no gol uma revanche acessível contra a rotina da derrota.
Essa função compensatória tem base fisiológica. O gol dispara o sistema nervoso simpático e o circuito de recompensa no cérebro humano. No momento que se comemora o gol, são liberadas adrenalina e a noradrenalina que elevam a frequência cardíaca, a pressão arterial e o estado de alerta. A dopamina, neurotransmissor central da recompensa, produz prazer e satisfação da expectativa. As endorfinas geram euforia e reduzem a percepção de esforço. A ocitocina, ativada no abraço coletivo, reforça o vínculo grupal. Cientificamente, o gol não é uma metáfora para a alegria, é a conquista neuroquímica real, ainda que breve e passageira.
Moraes Moreira captou essa reação e escreveu a letra da música “Saudades do Galinho”, composta quando Zico foi jogar no futebol italiano. Em seu refrão o compositor lamenta com muito pesar que sem seu ídolo ele não tem mais como se vingar das derrotas da vida, pois “a cada gol do Flamengo” se sentia “um vencedor”. A canção retrata exatamente a grande influência psicológica do futebol na vida da pessoa comum do povo ou de qualquer grande autoridade que não poderá contar com o alívio emocional que o seu ídolo do futebol entrega no domingo.
Eu, particularmente, sempre sinto um certo “aperto no peito” quando ouço essa música pois é possível sentir na pele a desilusão desse torcedor. É isso que o futebol oferece nas tardes de domingo a alguém marcado pela vida, que, mesmo que seja por alguns instantes, pode sentir o gosto da vitória.
Como nos versos de Cecília Meireles, “a vida só é possível reinventada”, e assim a cada gol comemorado há uma reinvenção de nós mesmos que esquecemos por alguns breves e intensos momentos as amarguras da vida. E encerro lembrando que para isso existem os ídolos e os poetas: para florearem a tristeza e saudarem a realidade com ternura, ainda que incerta e dura.





