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Martha Braga Mendonça faz 100 anos dia 26/12/23

Moradora ilustre de São Lourenço Martha Braga Mendonça  vai comemorar 100 anos

“Quantos anos você tem, Martha?”

“Ah, muitos… (ri)

Quando você nasceu?”

“No dia seguinte…

O bom humor e a inteligência sempre foram características da personalidade de Martha. Segunda filha de uma família de oito crianças, nascida na cidade de Brazópolis-MG, Martha veio com as irmãs e a mãe para São Lourenço há,aproximadamente, 80 anos, após o falecimento de seu pai e o adoecimento grave de sua irmã mais velha, Joanita Mendonça. São Lourenço seria, para a família, um lugar de cura, afeto e de esperança renovada.

 

Seu avô, Martinho Braga, e sua avó Mariquinha Braga, já viviam em São Lourenço em uma casa verde, construída por eles, que ficava em frente à padaria São Lourenço e que,posteriormente, foi comprada pelo Dr. Emílio A. Póvoa. Há alguns anos, esta casa foi demolida para dar lugar ao edifício da Faculdade São Lourenço. Nesta nova edificação, não se preservou a fachada histórica da antiga casa verde, algo que ocorre em várias construções arquitetônicas pós-modernas. Dizem que a demolição da casa verde foi a mais difícil de ser feita na cidade. Era uma casa bem construída, de fato, sólida e bonita. Afinal, Martinho Braga era um homem que gostava das coisas bem-feitas, gostava de arte, engenharia e também gostava muito de São Lourenço, participando de tudo que podia para o crescimento da jovem cidade, seja construindo uma casa, seja doando um dos doze vitrais da Igreja Matriz (a Basílica Menor de São Lourenço Mártir).

Força, resistência e persistência sempre foram marcas desta família, os Braga e, depois, de quem gerou Martha, os Braga Mendonça, expressando tais características em circunstâncias diversas.

Martha, por cerca de 50 anos cuidou diretamente de sua irmã mais velha, Joanita Braga Mendonça, acometida por um problema grave de saúde emocional que a impedia de se mover bem a fim de realizar suas atividades diárias e deslocamentos. Martha a acolheu e, com força, resistência, persistência, como também bom humor, cuidou diariamente de sua irmã poeta e musicista que, por muitos anos, publicouseus poemas e músicas no São Lourenço Jornal, editado anteriormente pelo Frei João da “gráfica” da Paróquia da cidade. É de Joanita, junto com outra irmã, a caçula, Josette Braga de Mendonça, a autoria do Hino da Paróquia de São Lourenço. Josette, falecida em 2016, professora, diretora escolar e criadora de uma pedagogia original e inovadora implementada na histórica Escola Externato São Francisco, sempre que possível convidava Martha para compartilhar seus conhecimentos com as crianças que estudavam no Externato, como também com as professoras. Martha possuía conhecimentos específicos sobre plantas, além de ter habilidades manuais e culinárias variadas. Qualquer conversa com ela parecia ser uma aula diferente e instigante.Receber incentivo para sair de casa, ter um convívio social, como fosse possível, era também um ato de liberdade para ela.

Conviver com Martha, Josette sabia, era, e é ainda, uma aprendizagem e alegria constantes. E ela também ensinava, e ensina, afeto e generosidade. Martha sempre disse do seu desejo de estudar agronomia. Tem afeto imenso pelas plantas e a agricultura, além de grandes habilidades para tal atividade. Não conseguiu fazer isso diante da tarefa diária de cuidados familiares e trabalhos domésticos que lhe foram destinados. Fez, então, do quintal de sua casa, seu mundo, da cozinha, um laboratório de experiências doces, das agulhas em máquina de costura de pedal e bordados, várias reinvenções em tecidos. Da educação escolar que recebeu, Martha a aproveitou de outro modo. Sua formação na “escola feminina de economia doméstica” sulmineira, de referência pedagógica belga e que objetivava a “boa permanência de um casamento com o homem”, nas palavras de Wenceslau Braz, a auxiliou em sua força, resistência e persistência no viver com sororidade em um lar que foi compartilhado com sua mãe, irmãs e sobrinha. Mas, desta escola também guardou lembranças do prazer das aulas de ginástica e dança.

Filhos? Bem, ficou somente com a primeira parte do poema de Vinícius de Moraes: “Filhos, filhos? Melhor não tê-los!”. Mas isso não significou ausência do exercício da maternagem, muito ao contrário. Sou prova viva disso. Sua alta responsabilidade no cuidado maternal foi exemplar, recheada de amor. E a catequese cristã católica por ela transmitida, baseando-se na prática humanista, no cotidiano do convívio solidário, não se furtava de reflexões éticas profundas. Daí seu desejo de melhor compreender, quando saiu nos jornais, o debate sobre as células-tronco para fins terapêuticos ou mesmo a real razão do encerramento, pela Paróquia local, do funcionamento da escola infantil de vanguarda na cidade, o Externato São Francisco, no edifício lateral da Igreja Matriz da cidade. Assuntos estes diretamente relacionados às irmãs Bertha (Braga Mendonça), diagnosticada com Doença de Alzheimer e vivendo em Belo Horizonte, e Josette, criadora do projeto pedagógico inovador da referida escola, com o alto incentivo e reconhecimento anterior de Frei Osmar Dirks.

Martha diz que não é uma pessoa importante, mas que as irmãs que residiram em São Lourenço, Joanita e Josette, sim. Hoje, sem a sua memória recente totalmente preservada, vive o presente com a alegria possível de se ter. E tem. Seu bom humor e curiosidade de conhecimento permanecem, bem como a inteligência de percepção e a amorosidade pelas pessoas. Isso é testemunhado por quem com ela convivediariamente: Ana Inácio, Chiquinha e Maria, suas cuidadoras lá no Bairro Carioca, em sua casa, morada de cinco décadas, na Rua Francisco Forastieri, número 31.

Martha talvez seja, então, mais uma das mulheres brilhantes e ao mesmo tempo ocultas existentes na cidade de São Lourenço. Mais uma mulher que colaborou ativamente para o crescimento da cidade, a seu modo, do seu jeito, como foi possível ser, como é possível viver, mas com muita dignidade, coragem, força, resistência e persistência. Com afeto.

Se ela se lembrasse de sua idade hoje, possivelmente não revelaria, pois sempre que teve oportunidade, marotamente, inventou um jeito de não dizer ou de criar outra data. E, assim, o cérebro acabou por obedecer-lhe, fazendo-a esquecer...

No entanto, a sobrinha-filha, que aqui escreve este texto, enxerida, sabe. E quer homenageá-la dizendo para quem puder ouvir: Parabéns, Martha, amo você, e obrigada pelo carinho comigo, com suas irmãs, mãe e com todas as pessoas que com você conviveram e convivem. E me desculpe por dizer sua verdadeira idade…

Que este veículo de comunicação possa também lhe dar os parabéns no “dia seguinte”, dia 26 de dezembro de 2023, dia de seu aniversário de 100 anos. Afeto é pop. Afeto é tudo.                                    

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