01-DEZ-25

Eu presto atenção no que eles dizem…

Prestar atenção nas falas dos políticos nunca foi o problema já que somos obrigados em período eleitoral nas campanhas de rádio e TV. O problema é que, em meio a tantos discursos, pouco se diz de fato sobre soluções que interferem na vida real das pessoas.

Talvez por isso a política brasileira parece viver de espelhos. Observam-se engajamentos políticos apaixonados como se estivessem em campos opostos de uma batalha decisiva, enquanto, na prática, o cidadão comum continua lidando com os mesmos problemas de sempre relacionados à saúde, educação, segurança, etc, etc, etc.

Mesmo fazendo apenas parte da plateia, nas ruas as pessoas defendem aguerridamente o lado que se identificam como se isso, por si só, fosse o suficiente para resolver os dilemas estruturais do país. A política passa a ser vivida mais como identificação ideológica, quase como torcida organizada, do que como instrumento concreto de transformação social, importando mais vencer o adversário na luta de direita versus esquerda do que enfrentar problemas reais.

É nesse ponto que a crítica presente na canção “Toda Forma de Poder”, da banda Engenheiros do Hawaii passa a funcionar quase como descrição do nosso cotidiano político, soando como um diagnóstico do discurso vazio (“Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada”).

Quando a canção observa que “eles não dizem nada” ela não ataca uma ideologia específica mas expõe o vazio de ações efetivas nos discursos de poder.

A ironia se torna ainda mais aguda quando a música continua e recorre a uma imagem provocativa no verso que diz “Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada.” Fidel Castro e Augusto Pinochet aparecem ali menos como personagens históricos específicos e mais como símbolos do poder em seus extremos. Ambos lideraram regimes ditatoriais e autoritários sendo o primeiro de esquerda e o outro de direita, em países latinos americanos na segunda metade do século XX. Demonstra o verso que independentemente da ideologia que se proclame, líderes fechados em seus próprios projetos tendem a governar movidos por interesses, vaidades e autopreservação enquanto as necessidades reais do povo não fazem parte de qualquer “plano de governo”.

O verso permanece atual porque a lógica não mudou. Mudaram apenas os personagens. Hoje, o embate reaparece com novos nomes, representantes contemporâneos de campos ideológicos opostos que se enfrentam em discursos duros, sanções e gestos de força. Enquanto líderes disputam narrativas e reafirmam seus egos, o cidadão comum ocupa exatamente o lugar apontado pela música como um espectador de discursos grandiosos que nada alteram sua vida concreta.

Esse cenário se torna ainda mais preocupante quando a lógica da polarização interna ultrapassa o plano retórico e passa a flertar com soluções externas. A recente intervenção norte-americana na Venezuela reacende um velho fantasma latino-americano de que interferência estrangeira é apresentada como salvação numa persistente colonização histórica. Mais grave, porém, é perceber que há vozes políticas que passaram a defender e naturalizar abertamente a ideia de uma intervenção militar externa no Brasil, como se soberania fosse detalhe e democracia pudesse ser “suspensa” por um tempo.

A radicalização do discurso se apresenta mais para manter trincheiras do que para construir pontes e talvez por isso a rebeldia artística siga sendo uma lente tão eficiente para observar a política pois quando se canta em versos sobre a desconfiança em “toda forma de poder”, afasta-se a ingenuidade em acreditar em líderes salvadores. Ditaduras nunca são bem-vindas, independentemente se as vozes que as defendem são de direita ou de esquerda.

É nesse ponto que a ironia de Millôr Fernandes se impõe como conclusão:
“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.”

Por Robson Soares de Souza – Instagram: @robsonsoares.adv

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