01-DEZ-25

Lírios não nascem das leis

Fui a um casamento no último sábado e, em um dos momentos mais bonitos da cerimônia, houve a leitura do capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios. O texto, conhecido por falar do amor como fundamento de tudo, ganhou ali uma força especial, fora do contexto religioso estrito, tocando algo muito humano e cotidiano.

Esse mesmo trecho é cantado na música Monte Castelo, da Legião Urbana, que ainda dialoga com versos da poesia de Luís de Camões. Essa combinação (Bíblia, poesia clássica e música popular) faz sentido porque fala de algo que atravessa o dia a dia de todos nós, independentemente de crença, formação ou posição política. É o amor como tema do cotidiano que passa sem se fazer percebido.

Na nossa apressada corrida diária, o amor que deixa de ter fluidez dentro de nós vai endurecendo a vida e a nossa relação com os outros. Esse é o perigo de enxergar o Direito e a política como ambientes que determinam como vivemos por meio de regras frias. Quando decisões públicas e jurídicas se afastam da experiência humana concreta, elas até podem ser formalmente corretas, mas deixam de cumprir uma função mais profunda.

Após a Segunda Guerra Mundial, o fortalecimento dos direitos fundamentais surgiu exatamente como reação à barbárie do conflito. Liberdade, igualdade e dignidade da pessoa humana passaram a ocupar o centro do Direito como ornamentos éticos. No entanto, o Direito e a política não são instrumentos que prometem felicidade.

Hannah Arendt, que tem sua obra delineada não a partir da delicadeza da poesia, mas da experiência histórica da guerra, da violência e da desumanização produzida pelo poder, afirma que “o amor, por sua própria natureza, é alheio ao mundo, e é por essa razão, e não por sua raridade, que ele é não apenas apolítico, mas antipolítico”. Ela não diminui o valor do amor mas reconhece seus limites diante da esfera pública e da lógica do poder.

Se os lírios não nascem das leis, tampouco o amor pode ser produzido pela política. A norma organiza o mundo, mas não cria sentido. A lei estrutura a convivência, mas não faz florescer aquilo que é humano demais para ser normatizado.

E se nos versos de Carlos Drummond de Andrade há a constatação de que “as leis não bastam, os lírios não nascem da lei” podemos entender que a norma organiza o mundo, mas não cria sentido ao mundo.

No fim, aquele trecho lido na cerimônia de casamento dizia mais do que qualquer discurso pois estava impregnado de sentimento que não existe em normas. E está tudo bem que, na vida, a poesia às vezes nos falte pois isso faz parte da experiência humana. O que não podemos aceitar é que essa falta se torne regra institucional ou linguagem do Direito. Há momentos em que o colorido se desbota e a frieza deixa de ser técnica e passa a ser característica humana e esse aspecto se percebe de forma simples nos versos de Adélia Prado:

Tem dias que Deus me tira a poesia, olho pedra e vejo pedra mesmo.”

É essa redução da vida à pedra que contrapõe-se aos lírios de Drummond. Porque, no fim, tudo se esclarece na ideia simples, lida no casamento e cantada na música, de que “sem amor eu nada seria”.

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